Sonia Neves responde perguntas no Dia das Mães

Sonia Neves responde perguntas no Dia das Mães

Era o ano de 1989 quando a engenheira carioca Sônia Neves, hoje com 65 anos, viveu o pior drama pelo qual uma mãe pode passar: descobriu que seu filho mais novo, Marcos, com 8 anos, tinha leucemia. Depois de um longo período de tratamento em hospitais no Rio, os médicos disseram que a única possibilidade de cura seria um tipo de transplante que ainda não existia no Brasil. Com a ajuda de amigos, a família foi para Nova York. Lá teve a oportunidade de ficar numa Casa Ronald McDonald, mantida pela rede de fast food, enquanto o filho fazia o tratamento. Depois de dois meses, Marcos não sobreviveu.

Sonia voltou para o Rio, decidida a criar por aqui um projeto semelhante. Em 1990, ela e o marido, Francisco, tornaram-se voluntários do Inca. Foi lá que conheceram o presidente do McDonalds, contaram-lhe a experiência em Nova York e perguntaram por que não havia uma Casa Ronald McDonald no Brasil. Assim começou uma das maiores mobilizações pela causa do câncer no País. Desde então, a instituição, com sede no Maracanã, já atendeu e melhorou a vida de mais de 3 mil crianças e adolescentes, e contribuiu para o aumento do í­ndice de cura do câncer infanto-juvenil. Atualmente, a Casa Ronald tem capacidade para hospedar 57 crianças acompanhadas, mas, com a pandemia, esse  número caiu para 13. A Casa tem 360 voluntários e sobrevive exclusivamente das doações de empresas e pessoas físicas.

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Na pandemia, a Casa está com dificuldades para receber doações?

Sim, por causa da paralisação das visitas e a diminuição dos clientes no Bazar, bem como feiras e demais eventos que revertiam em bastantes doações. Diminuíram também as doações de amigos contribuintes devido ao cenário econômico do País. O McDia Feliz é responsável por 45% do custo anual da Casa; o restante temos que garantir através dos projetos da captação. Mas estamos recebendo muitas doações de alimentos, roupas, as pessoas estão aproveitando este momento para fazer a arrumação dos armários.

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De onde tirou forças para superar a perda de um filho?

A vida nos ensina que o tempo cicatriza todas as feridas. Se algo nos dói, não devemos nos desesperar: o passar dos anos é a solução. Algumas feridas desaparecem completamente, outras permanecem marcadas em nossa pele para que sempre nos lembremos delas; ainda assim, o tempo é capaz de amenizar a dor. Eu percebi que precisava fazer algo para os outros. No início, foi muito dolorido, mas, com a ajuda de outras pessoas, consegui entender e aceitar. Isso foi me dando forças para continuar com esse trabalho para ajudar crianças e famílias que passam pelo mesmo problema.

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Qual a sensação de poder ajudar? Você sofre junto?

Fico muito orgulhosa de saber que tudo que fiz pelo meu filho eu posso fazer por tantas outras crianças, que aquele amor que eu tinha posso dividir com tantas outras crianças e famílias inteiras. Eu realmente sofro junto com elas, porque sei e senti na pele como é complicado ter uma criança com câncer numa família com outros filhos e ter que se dedicar exclusivamente a uma só, sem a certeza se ele vai ficar bom ou não. A gente vê muitas mães tristes, chorando, mas procuro incentivá-las, dizendo que Deus está presente e que temos de lutar. Costumo dizer que é como se fosse uma loteria: se não apostar, a gente não sabe se vai ganhar. Dou exemplos de algumas crianças que hoje têm uma vida e uma família. Tento dar o exemplo de que eu fui uma mãe que não teve sucesso, mas que superei. Sei que é  sofrido, mas não podemos ser egoístas porque, às vezes, é melhor a criança partir do que continuar sofrendo. A partir daí, vamos melhorando e suportando a perda de maneira mais resignada. Tive muito apoio psicológico, pessoas ao meu redor que me levantaram e me tiraram daquele momento de tristeza. Resolvemos então pegar aquela situação e ajudar outras pessoas. Hoje, nosso percentual de sucesso é bem maior que o das perdas. O que eu passo para as mães é justamente isto: os maiores ensinamentos da resignação, da força, da luta, de não se deixar abater, de acreditar e, se não for com sucesso, que pelo menos elas entendam que foi melhor para a criança e para a família.

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O que diria para dona Déa Lúcia, mãe do Paulo Gustavo, neste momento de perda?

Que ela tenha resignação, força, porque a vida continua; que ele estará, com certeza, lá de cima, olhando por todos nós e por toda a família. Eu acredito nisso! Acredito que o meu filho está próximo e, sempre que passo por momentos difíceis, creio que ele intercede por nós e nos dá forças para continuar. Não dá para nos revoltarmos neste momento. Espero que ela tenha fé, resignação e pense que ele tirou umas férias e, em breve, se reencontrarão.

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E como está sendo sobreviver à pandemia?

As nossas crianças ficaram  fragilizadas; algumas tiveram que interromper o tratamento por conta da covid. A casa diminuiu o número de hospedagens — logo no início de 2020, não aceitamos crianças. Os cariocas têm sido solidários como podem, e a pandemia serviu para que as pessoas sejam mais solidárias. Acho que estamos aprendendo e mudando a maneira de pensar e agir. Os hospitais estão assoberbados — muitas crianças suspenderam o tratamento porque o INCA, centro de referência, está lotado. As crianças que pegaram covid ocupam os leitos e não podem voltar pra casa, o que agrava por serem imunodeprimidas por conta do câncer. A gente ajuda também, orientando as mães. É um momento totalmente diferente, mas estamos conseguindo. Sou muito otimista. Tem que ter fé e esperar o momento certo, não desistir e não desanimar porque, em algum momento, consegue-se resolver. Foi uma mudança bem drástica e tivemos que mudar nossos hábitos, valores, pensamentos, atitudes e olhar o mundo de uma outra forma e, como mãe, desejo saúde e força.

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Qual a história que mais a marcou?

Há 25 anos, no início, tivemos uma hóspede que fez transplante e teve muitas rejeições, mas, ao longo do tratamento, ela foi se recuperando, perdeu os dentes, ficou com o rostinho manchado. Hoje, porém, ela é um exemplo de superação. Está linda e maravilhosa.

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