Autoestima e força contra o câncer

qua, 28/06/2017 - 16:26
Por Matheus Merlim - Jornal O São Gonçalo
 
O tratamento de um câncer não é nada simples. Além dos efeitos colaterais que prejudicam a saúde física, os procedimentos de quimio e radioterapia também mexem com a autoestima do paciente. Principalmente com relação às mulheres, tanto adultas quanto pré-adolescentes, que possuem maior vaidade com cabelos e aparência. Pensando em amenizar esse processo de recuperação, O SÃO GONÇALO promoveu a campanha "Esperança Por Um Fio", em parceria com a Casa Ronald McDonald. Com objetivo de arrecadar cabelos para confecção de perucas para as vítimas da doença, a ação social mobilizou centenas de mulheres em dois salões de beleza de São Gonçalo: Dellas, em Alcântara, e o Espaço Radical Chic, no Centro. Os cabelos coletados foram encaminhados para a ONG Laços de Amor, em Volta Redonda, que conta com a parceria com a Bless Centro Técnico de Beleza para fazer as perucas.
 
Para participar da doação, o requisito era cortar, pelo menos, 10cm do cabelo (de qualquer tipo, mesmo com química). Uma das doadoras foi a supervisora Mirian Benvindo, de 42 anos, que viu na iniciativa a oportunidade perfeita para se solidarizar com a causa. Ela, inclusive, enfrentou o câncer dentro de casa. "Há dois meses, eu perdi minha cunhada para o câncer. Ela foi forte, mas já tinha atingido muitos órgãos e ela não resistiu. A gente sabe que não pode curar, mas só de saber que um gesto pode amenizar um pouco a dor de alguém, já é gratificante. Eu já costumo cortar o cabelo à toa, então vamos cortar para fazer o bem", se emocionou Mirian, ao realizar o corte no Salão Dellas, em Alcântara.
 
Mãe e filha também decidiram abraçar a campanha, no Radical Chic. De acordo com a comerciante Viviane Coutinho, de 41 anos, a intenção de doar o cabelo surgiu em dezembro, mas por falta de tempo acabou adiando. Com a divulgação da ação na página oficial de O SÃO GONÇALO no Facebook, ela não perdeu tempo e agendou um horário. "Já era um desejo tanto meu quanto da minha filha de doar. Mas a gente não tinha oportunidade de parar a rotina para fazer isso. Ela está toda boba, já quer deixar o cabelo crescer de novo para doar mais”, contou Viviane, que foi acompanhada da filha Manuella Gonçalves, de oito anos. 
 
A mobilização popular foi tão grande que os sete dias disponibilizados para a doação parecem ter sido poucos. A campanha - que começou no último dia 6 e terminou ontem - sensibilizou mais de 200 pessoas, que realizaram cortes e entregaram cabelos já cortados nos salões parceiros. Responsável pelo Radical Chic, a cabeleireira Néa Rigon, de 52 anos, contou que a experiência foi enriquecedora para sua carreira. "A agenda ficou lotada nos dias de campanha. Em alguns dias, precisei da ajuda de outras funcionárias para dar conta. Foi muito bonito ver as pessoas participando em prol de uma causa tão nobre", disse.
 
Dividindo o mesmo sentimento, a cabeleireira Patricia Alves, 41, responsável pelo Salão Dellas, também se surpreendeu com a procura da população. "A princípio, a campanha era só às terças e quartas, mas acabei recebendo a semana toda. Muita gente vinha para cortar e outras só para entregar o cabelo. Muitas mulheres se emocionaram na cadeira contando as histórias que passaram. Foi muito bonita toda a ação", completou. A campanha também contou com o apoio do Espaço Emoções, especializado em serviços terapêuticos, que fica no Mutondo, em São Gonçalo.
 
Arrecadação vai para Casa
 
Todo o cabelo arrecadado na campanha "Esperança Por Um Fio" foi entregue na Casa Ronald McDonald, no Maracanã, Zona Norte do Rio. Considerada referência no apoio ao tratamento do câncer infanto-juvenil, a entidade cuida, atualmente, do acompanhamento de 57 pacientes e suas famílias. As madeixas doadas foram recebidas pela própria presidente-voluntária e fundadora, Sônia Neves, responsável por trazer ao Rio, o conceito da Casa.  "Sou apaixonada por essa Casa. Hoje, ela é o que é por esforço de muitas pessoas, que passaram por aqui e outras que vêm para ajudar. É muito bonito ver que, durante esses anos todos, esses pacientes conseguem vencer e ter qualidade de vida. Começamos com a hospedagem, mas agora nossa preocupação é com a família inteira. A gente fica muito feliz e agradecido quando recebemos esse carinho de fora, com mais pessoas abraçando a causa", afirmou Sônia, que fundou a 1ª Casa Ronald da América Latina.
 
 
Apesar de terem o nome vinculado à rede de restaurante McDonald, a parcela de contribuição do fastfood é de 30% das despesas anuais, todo o restante é arrecadado por doações. "A gente não quer perder a qualidade do que a gente se propõe. Fazemos tudo o que for possível de melhor para eles. É o que eu digo, queremos fazer para eles o que faríamos por nossos filhos. Não consegui ficar com meu filho, mas fiquei com vários. Isso dá muito orgulho, vê-los vencerem", concluiu Sônia, que se engajou ao tema após passar pelo tratamento de leucemia de um filho.
 
São histórias como a de Tamires Ferreira, de 18 anos, que mantém acesa a esperança por dias melhores. Moradora de Queimados, na Baixada Fluminense, a jovem descobriu um câncer na medula blastoma, em 2015, e desde então segue na luta para combater a doença. "No começo foi meio complicado. Fiquei dois meses vomitando, com sintomas completamente diferentes do câncer. Os médicos diziam que ou era um tumor ou distúrbio mental. Dei entrada no hospital de Saracuruna com uma lesão no cérebro. Fui transferida para IEC (Instituto Estadual do Cérebro), onde fiz a primeira cirurgia. Depois fui para o Inca (Instituto Nacional de Câncer), onde fiz a segunda. Foram dois procedimentos em 35 dias. O tratamento começou depois, com rádio e quimioterapia. Se não fosse a Casa, eu não sabia o que ia fazer. Como eu faria para vir de Queimados para cá? Para fazer um tratamento que dura menos de 15 minutos?", explicou.
 
A paixão pelo cabelo longo era tanta, que ela já se abateu quando soube que perderia com o tratamento. Só que foi ainda mais doloroso porque os fios caíram antes do que planejaram os médicos. "Eles disseram que eu passaria o Natal e o Ano Novo com cabelo. Mas no dia 15 de dezembro, eu acordei e senti minha cabeça gelada. Passei a mão e não tinha mais nada. Meu cabelo estava todinho no travesseiro. Sofri mais por causa do meu cabelo do que pelo câncer", comparou.
 
 
Tamires é uma entre outras adolescentes que passaram pela perda de cabelo. Para a jovem, a peruca é fundamental para resgatar a autoestima durante o tratamento. "É sempre bom tirar um tempo para se arrumar", contou. Atualmente, na Casa, o número de pré-adolescentes é baixo. Caso o número de perucas confeccionadas com os cabelos arrecadados seja maior que a necessidade, a organização repassa o material para o Inca e outros parceiros.
 

Néa Rigon e Patricia Alves foram até a Casa Ronald Mc Donald, no Maracanã entregar os cabelos recolhidos durante a campanha de O SÃO GONÇALO

Foto: Leonardo Ferraz
 
 
Projeto completa dois anos
 
A Casa Ronald McDonald conta com a parceria da ONG Laços de Amor, que tem sede em Volta Redonda, no Sul Fluminense, para realizar a confecção das perucas. Os cabelos doados à instituição do Maracanã são encaminhados para a Bless Centro Técnico de Beleza para serem transformados em peruca. Idealizadora do projeto e diretora do centro, Alessandra Moraes, de 45 anos, explica que, para a produção de uma peruca, são necessários 200 gramas de cabelo.
 
"Para se fazer uma peruca do tamanho ideal, hoje, a gente precisa de 200 gramas de cabelo ou seis metros de tiras (mistura de fios). No mercado, essa peruca custa, em média, R$3 mil. Dá muito trabalho, mas vale muito a pena cada minuto desse projeto. Quando as pacientes chegam ao centro, elas não querem raspar a cabeça. É preciso conversar com elas e explicar que ela não sairá careca. Ela chega triste e sai com a autoestima lá em cima", explica Alessandra.
 
O projeto de confecção de perucas completou dois anos na semana passada. No início, a Bless pagava R$60 por peruca a um costureiro, que posteriormente ensinou a prática para que o projeto social conseguisse continuar atuando nessa área. Hoje, Alessandra sonha com um aumento da produção.
 
"Tudo começou em 2005, quando conheci uma menina de 11 anos com leucemia. Ela não tinha peruca, mas eu tinha ganhado um aplique e fizemos uma peruca. Aquele cabelo trouxe a vida dela de volta, passou a ir à escola e tudo mais. Hoje, temos três costureiras fabricando em duas máquinas. Nosso desafio é conseguir mais duas máquinas para o projeto", declarou. 
 
Quem quiser conhecer um pouco mais do trabalho da Bless e da ONG Laços de Amor, pode acessar a página do centro: www.facebook.com/blessbeleza. A sede fica na Rua Gustavo Lira, 334, no bairro de São João, em Volta Redonda.
 
 
Imprensa: Rádio Mania
 
 
 
 

Comentar